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Odesson Alves Ferreira, uma das vítimas do acidente radiológico com Césio-137 em Goiânia, afirma que a série dramatizada sobre o caso apresenta episódios que, segundo ele, não correspondem ao que foi vivido pelas vítimas. Ele também defende que a história seja registrada com base no relato de quem esteve diretamente envolvido no acidente. O acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987, continua sendo tema de produções audiovisuais, livros e debates décadas depois. Para Odesson Alves Ferreira, uma das pessoas diretamente atingidas pela contaminação, parte do que foi apresentado recentemente em uma série sobre o episódio não retrata com fidelidade os acontecimentos.
Em entrevista ao jornalista Brunno Moreira, Odesson afirmou que a produção teria apresentado uma versão resumida dos acontecimentos e criticou, principalmente, a forma como foram retratadas a atuação do então governador de Goiás, Henrique Santillo, o atendimento às vítimas, os episódios de resistência da população e a participação de diferentes personagens durante a crise. Segundo Odesson, Santillo não teria tentado esconder o acidente. Ao contrário, ele afirma que o então governador prestou apoio às vítimas e participou de medidas para garantir assistência às pessoas afetadas. De acordo com o relato, a primeira-dama à época, Sônia Célia Santillo, também esteve presente durante os primeiros sepultamentos das vítimas.
“Ele deu total apoio. Não escondeu nada”, afirmou Odesson ao recordar o período. Segundo ele, a pensão destinada às vítimas também teria sido criada ainda durante o governo Santillo, antes de uma mobilização das vítimas para reivindicar o benefício.
Relatos sobre o atendimento às vítimas
Odesson também contesta a maneira como a série teria retratado o atendimento hospitalar. Segundo ele, uma greve ocorrida naquele período não teria prejudicado o tratamento das pessoas contaminadas, já que os médicos responsáveis pelo atendimento eram, em sua maioria, de fora. Ele também afirma que a produção teria exagerado o número de pacientes internados. Segundo seu relato, apenas dois pacientes estavam efetivamente internados, enquanto outras pessoas que chegaram ao hospital permaneceram em uma área isolada, sem ficarem acamadas.
Outro ponto contestado envolve a família de Leide das Neves. Odesson afirma que a mãe da menina não teria realizado viagens da maneira retratada na produção, devido às condições físicas e emocionais em que se encontrava após a tragédia. Ele também sustenta que Leide, Lucimar e Ivo não permaneceram no Estádio Olímpico, como outras pessoas menos contaminadas. Segundo o relato, os três passaram pela porta do estádio em um ônibus da Polícia Militar e seguiram diretamente para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT).
Devair é descrito de forma diferente da apresentada na série
Odesson também questiona a representação de seu irmão, Devair Alves Ferreira, proprietário do ferro-velho onde ocorreu grande parte da contaminação. Segundo ele, Devair era uma pessoa “doce” e brincalhona e não tinha o comportamento rude, arrogante ou agressivo apresentado na produção. Odesson afirma ainda que, quando policiais e técnicos chegaram para retirar as vítimas, Devair estava sentado e debilitado, sem condições físicas de permanecer em pé.
O entrevistado também contesta cenas relacionadas à retirada de móveis e objetos das casas das vítimas. Segundo ele, parte dos pertences chegou a ser retirada para descontaminação, mas, posteriormente, alguns móveis foram devolvidos às famílias, indicando, em sua avaliação, que não estavam contaminados.
“Foi muita coisa errada”, afirmou Odesson ao avaliar a representação dos acontecimentos.
Resistência da população ocorreu, mas teria sido diferente
Sobre a reação dos moradores de Abadia de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia, Odesson reconhece que houve resistência da população, mas afirma que os acontecimentos não teriam ocorrido da maneira mostrada na série. Segundo ele, manifestações mais intensas ocorreram durante os primeiros sepultamentos de Leide das Neves e Maria Gabriela. Nos enterros posteriores de Israel e Adimilson, de acordo com seu relato, não houve manifestações semelhantes.
Críticas à narrativa sobre Walter Mendes
Outro personagem que, segundo Odesson, teria recebido uma representação diferente da realidade é Walter Mendes. O entrevistado afirmou que a produção teria atribuído a ele uma posição de protagonismo maior do que a que efetivamente teve na resposta ao acidente.
De acordo com Odesson, quem acionou a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), após a confirmação de que o material era radioativo, foi o então secretário de Saúde, Antônio Faleiros. Segundo ele, Faleiros teria procurado a CNEN e solicitado auxílio ao médico Júlio Rosenthal.
Número de pessoas consideradas vítimas aumentou

Odesson também falou sobre a Associação das Vítimas do Acidente. Segundo ele, quando deixou a presidência da entidade, há cerca de 12 anos, eram contabilizadas aproximadamente 720 pessoas. Atualmente, segundo seu relato, o número teria ultrapassado 1.100 pessoas consideradas radioacidentadas.
Sequelas definitivas
A situação, considerada gravíssima e de notoriedade internacional, deixou inúmeras sequelas nos sobreviventes. Odesson relata que ficou com marcas definitivas decorrentes da exposição ao material radioativo. Segundo ele, as principais consequências ficaram nas duas mãos, após o contato direto com o pó radioativo de cor azulada. Ele passou por inúmeras cirurgias, enxertos e pela amputação de um dedo.
Livros devem contar a história sob a ótica das vítimas
Além das críticas à série, Odesson trabalha na preparação de livros sobre o acidente. Segundo ele, as obras estão sendo elaboradas com auxílio de jornalistas e escritores, mas ainda passam por ajustes e não tiveram seus títulos definidos.
O objetivo, segundo o entrevistado, é evitar que informações consideradas incorretas sejam perpetuadas. Ele afirmou que chegou a interromper a publicação de um dos livros após identificar 22 pontos que precisavam de correção, dos quais apenas dois haviam sido alterados. Para Odesson, a história do acidente deve ser contada a partir dos relatos de quem viveu diretamente os acontecimentos.
“É melhor você conversar com quem viveu a história”, afirmou o tio de Leide das Neves ao jornalista Brunno Moreira.
Participação em evento em São Paulo
Odesson também revelou que foi convidado para participar, em novembro, de um grande evento em São Paulo relacionado ao tema. A data ainda não havia sido definida no momento da entrevista. Segundo ele, a participação terá justamente o propósito de contribuir para o esclarecimento dos acontecimentos e apresentar a versão de quem vivenciou diretamente o acidente com o Césio-137.
O jornalismo do Goiás em Foco tentou contato com a Netflix, responsável pela distribuição da série, em busca de esclarecimentos. No entanto, até o fechamento desta edição, não houve retorno por parte da plataforma.
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