O Conselho Regional de Contabilidade de Goiás (CRCGO) alerta profissionais da contabilidade, empresários e a população para uma nova modalidade de golpe que utiliza o nome do Novo Desenrola Brasil para induzir vítimas a realizar pagamentos via Pix. A fraude ganhou um elemento capaz de tornar a abordagem ainda mais convincente: sites falsos apresentam dados pessoais verdadeiros, como nome completo, CPF e data de nascimento, antes mesmo de iniciar a suposta negociação.

A campanha fraudulenta foi identificada pela empresa de cibersegurança Kaspersky. Mais de 60 domínios contendo o termo “desenrola” já foram associados à estratégia. As páginas reproduzem elementos visuais semelhantes aos de canais governamentais e são divulgadas principalmente por meio de redes sociais. Em alguns casos, os criminosos utilizam chats, áudios e vídeos pré-gravados para simular o atendimento de uma instituição. 

Depois de apresentar os dados da vítima, o sistema realiza uma falsa análise financeira, informa supostas dívidas e oferece condições extremamente vantajosas, incluindo descontos de até 99%, retirada do nome dos cadastros de inadimplentes e aumento do score de crédito. Para “concluir” o acordo, é solicitada uma taxa por Pix. O valor, porém, é direcionado a contas utilizadas pelos golpistas e nenhuma dívida é quitada. 

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O presidente do CRCGO, Marcelo Cordeiro, chama atenção principalmente para o uso de informações verdadeiras como instrumento de convencimento. “O fato de uma página apresentar corretamente o nome, o CPF ou outros dados da pessoa não significa que aquele canal seja legítimo. Hoje, os golpes estão cada vez mais sofisticados e exploram justamente a confiança e a pressa de quem quer resolver uma pendência financeira. Antes de realizar qualquer pagamento, é fundamental interromper a operação e conferir a informação diretamente com a instituição responsável. Para empresários, MEIs e demais contribuintes, o profissional da contabilidade também exerce um papel essencial de orientação, ajudando a analisar informações, identificar situações suspeitas e tomar decisões financeiras com mais segurança”, alerta Marcelo.

Goiás registra alta de 19,1% nos golpes digitais
O avanço desse tipo de crime ocorre em um cenário de crescimento dos estelionatos eletrônicos. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que Goiás registrou 5.691 ocorrências de estelionato por meio eletrônico em 2025, contra 4.733 no ano anterior. O aumento foi de 19,1% em um ano, e a taxa estadual passou de 64,4 para 76,7 ocorrências a cada 100 mil habitantes.

O problema também aparece em escala nacional. O Brasil passou de 286.226 registros de estelionato eletrônico em 2024 para 346.753 em 2025, crescimento de 20,6%. Considerando todas as modalidades de estelionato, foram mais de 2,26 milhões de ocorrências no país no último ano. Os dados indicam o avanço das fraudes digitais entre os crimes patrimoniais. 

Outro levantamento mostra a dimensão da exposição da população às fraudes. Segundo o relatório O Estado dos Golpes em 2026, baseado em pesquisa internacional da Global Anti-Scam Alliance, 81% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter tido contato com algum tipo de golpe no período analisado. O prejuízo médio entre vítimas foi estimado em R$ 1.287, enquanto as perdas no país chegaram a cerca de R$ 21 bilhões.

Programa oficial não cobra taxa para adesão
Um dos principais sinais de alerta está na cobrança. O Novo Desenrola Brasil não cobra taxa de adesão. Para participar, o cidadão deve procurar diretamente os canais oficiais das instituições financeiras participantes. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, informa que a renegociação é feita por seus canais de atendimento e que não há taxa para adesão ao programa. 

No programa voltado às famílias, podem participar pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos e que tenham dívidas elegíveis contratadas até 31 de janeiro de 2026, com atraso entre 91 dias e dois anos. As condições oficiais incluem descontos de até 90%, taxa máxima de juros de 1,99% ao mês e prazo de até 48 meses para pagamento. 

A diferença entre a oferta oficial e a fraude também ajuda na identificação do golpe: enquanto o programa prevê descontos de até 90%, conforme as condições da dívida e da instituição participante, as páginas criminosas chegam a anunciar abatimentos de 99% e condicionam o benefício ao pagamento imediato de uma suposta taxa. 

Como se proteger
O CRCGO recomenda que qualquer proposta de renegociação de dívidas seja conferida fora do ambiente em que foi recebida. Links enviados por WhatsApp, SMS, redes sociais ou anúncios patrocinados não devem ser utilizados como referência para efetuar pagamentos. O endereço ou aplicativo oficial da instituição financeira deve ser acessado diretamente pelo usuário.

Também é importante conferir o destinatário antes de confirmar um Pix, desconfiar de ofertas muito superiores às condições normalmente praticadas e jamais considerar a apresentação de CPF, endereço, data de nascimento ou outros dados pessoais como prova de autenticidade. Órgãos federais já alertaram para golpes em que criminosos apresentam inclusive nomes de familiares e outras informações verdadeiras para criar aparência de legitimidade.

Caso o pagamento já tenha sido realizado, a orientação é entrar em contato imediatamente com a instituição financeira e comunicar a fraude. No Pix, o banco pode acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), procedimento criado para tentar bloquear e recuperar valores em situações de golpe, fraude ou coerção. A devolução depende da análise do caso e da existência de recursos nas contas envolvidas.

A vítima também deve preservar comprovantes, capturas de tela, endereço do site, conversas, números telefônicos e informações da chave Pix utilizada pelos criminosos, além de registrar a ocorrência policial. Em Goiás, o registro pode ser realizado pelos canais da Polícia Civil, inclusive por meio da Delegacia Virtual.