Túmulos das vítimas do Césio 137 em Goiânia
Fundado em 1961, o Cemitério Parque de Goiânia é responsável pelo sepultamento de mais de 200 mil pessoas. Entre elas, estão as vítimas do maior acidente radiológico do Brasil e um dos maiores do mundo. Em setembro de 1987, catadores de materiais recicláveis encontraram, em uma clínica médica desativada no centro de Goiânia, uma cápsula contendo material radioativo, que posteriormente foi identificado como césio-137. O contato com o pó causou a contaminação e a morte de várias pessoas, sendo necessária a implantação de procedimentos similares aos de uma guerra química.
Entre as vítimas estava Leide das Neves Ferreira, que, à época, tinha apenas seis anos de idade. Ela recebeu uma alta carga de radiação por ser filha do proprietário do ferro-velho, que adquiriu o material de uma clínica abandonada e violou o recipiente que armazenava a substância brilhosa e mortal. Após ser levada para o Estado do Rio de Janeiro, Leide não resistiu às complicações causadas pela radiação, falecendo no dia 23 do mês seguinte ao acidente.
Após 35 anos da tragédia, moradores e frequentadores do Cemitério Parque, na região Noroeste de Goiânia, denunciam a presença de vândalos e praticantes de rituais de cunho religioso, que adentram o local com facilidade devido à ausência de um muro de proteção, deixando túmulos e ossários desprotegidos. Os invasores violam sepulturas, retiram os restos mortais e, em seguida, realizam rituais. Furtos e incêndios também são relatados por pessoas que transitam pela região. Entre os jazigos danificados, estão os de Maria Gabriela Ferreira, Admilson Alves Souza e da menina Leide das Neves — todos vítimas da radiação causada pelo Césio-137.
Túmulos das vítimas do Césio 137:
Resolvemos percorrer pelo cemitério, e notamos que ossos humanos estão espalhados por todo o percurso: São crânios e outras partes armazenadas de forma irregular, causando revolta e até mesmo risco à saúde pública de quem mora ou frequenta a região. No espaço construído para o funcionamento de uma capela, moradores em situação de rua e usuários de entorpecentes a destruíram após atear fogo.
O muro, que deveria servir como proteção para o local, foi derrubado, deixando a passagem livre e com acesso direto a uma das avenidas mais movimentadas da capital (Perimetral Norte). Conversamos com Antônio de Siqueira, morador da região desde 1970. Ele relata que é difícil até passar em frente ao cemitério no período noturno, devido à presença constante de usuários de drogas: “Eu evito retornar para minha casa passando por aqui. Já presenciei vários assaltos, tenho medo”.
O local foi construído na gestão do ex-prefeito de Goiânia Hélio Seixo de Brito Júnior, na década de 1960, e já não realiza mais sepultamentos comuns, apenas de famílias que possuem jazigos. A Prefeitura de Goiânia divulgou uma nota no último dia 23/09, dando prazo para que familiares reformem os jazigos; caso contrário, o serviço será executado e cobrado posteriormente. Se for comprovado o abandono, o espaço pode ser destinado a outra família.
Brunno Moreira
Jornalista ®0004120/GO
Comentários: