Antes mesmo de aprenderem a caminhar, muitas crianças já acompanham os pais nos ensaios, nas novenas e nos cortejos das Congadas. Carregadas no colo, vestidas com os primeiros fardamentos ou embaladas pelo som das caixas e dos tambores, elas são apresentadas, desde os primeiros meses de vida, a uma tradição que mistura fé, ancestralidade e pertencimento.


Nas famílias congadeiras, a transmissão de conhecimentos acontece de forma natural. O respeito aos rituais, as rezas antes das saídas, os cantos, os instrumentos e a devoção a Nossa Senhora do Rosário são ensinamentos compartilhados no cotidiano, muito antes de serem compreendidos em sua totalidade pelas crianças.


Em 2025, as Congadas, os Reinados e os Congados tiveram o registro aprovado, por unanimidade, no Livro dos Saberes, durante a 109ª reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), realizada em 17 de junho. Com a decisão, a festividade passou a ser oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil. A presença das novas gerações a ajuda a manter viva essa herança cultural. Ao envolver crianças e jovens desde cedo, as famílias congadeiras mantêm conhecimentos, valores e memórias coletivas ao longo do tempo.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:


Uma herança que começa no colo
Aos 60 anos, a capitã do Terno de Congo Zé do Goto, Denise do Rosário Alves, conhece bem esse processo. Filha de congadeiros, ela cresceu acompanhando o pai, capitão da guarda, e a mãe, responsável pelos preparativos da festa. Hoje, vê filhos e netos seguirem o mesmo caminho. "Meu filho mais velho começou com um ano de idade e está até hoje na Congada. Agora, meu neto, filho dele, também participa. O que meu pai deixou para nós nunca pode acabar", afirma.


Denise lembra com emoção do momento em que viu o filho fardado pela primeira vez, usando as cores azul, rosa e branco do terno. "Quando vi ele fardado, agradeci a Deus e a Nossa Senhora por estar carregando ele nos braços e por ele fazer parte, desde pequeno, da fé que eu carrego no coração", relembra.
Para ela, a continuidade da tradição está nos gestos simples, repetidos antes de cada saída. "Meu pai ensinou que, antes de sair para a rua, a gente faz o sinal da cruz e pede proteção em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É isso que passo para os meus filhos e netos."


Passado e futuro unidos pela fé e tradição
Se para os pais o primeiro fardamento dos filhos representa emoção, para as crianças o contato diário com as Congadas se transforma, aos poucos, em identidade. Foi assim com Jhon Kennedy Ribeiro de Mesquita, que participa da festa desde 2002, quando tinha apenas um ano de idade. O pai, Roberto Ribeiro, recorda que a conexão do filho com a tradição surgiu muito cedo.


Ao longo dos anos, Roberto viu o filho deixar de acompanhar os cortejos para assumir responsabilidades dentro da guarda. "Percebi que ele tinha criado uma conexão verdadeira quando pegou o bastão e o apito para fazer sua primeira marcação e cantar", afirma.


Hoje, ao ver o filho fardado, ele enxerga a continuidade de uma tradição construída por gerações. Entre os ensinamentos transmitidos estão o respeito aos integrantes da festa, às lideranças e aos rituais que antecedem os cortejos. E dentro desse ambiente que crianças aprendem sobre coletividade, fé e ancestralidade. Para Roberto, esse é o maior legado. "Quero deixar para ele tudo o que aprendi na minha infância: construir instrumentos, fazer músicas, criar coreografias e entender o valor da nossa história."


Muito além da festa: a história e o significado das Congadas em Goiás
As Congadas são manifestações culturais e religiosas de matriz afro-brasileira que unem música, dança, devoção e memória ancestral. Originadas das tradições trazidas por povos africanos e ressignificadas ao longo dos séculos no Brasil, elas representam um encontro entre referências culturais africanas e elementos da religiosidade católica popular.


Em Goiás, a tradição ganhou características próprias e se consolidou como uma das mais importantes expressões do patrimônio imaterial do estado. Os cortejos, os cantos, os toques dos tambores, as vestimentas coloridas e a organização em guardas e ternos carregam simbolismos que homenageiam santos de devoção, especialmente Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia, ao mesmo tempo em que preservam a memória e a resistência das comunidades negras.


Os preparativos acontecem durante todo o ano, envolvendo ensaios, confecção de fardamentos, produção de instrumentos, rezas, encontros comunitários e a transmissão de conhecimentos entre diferentes gerações. Em cidades como Catalão, a tradição ocupa as ruas fortalecendo laços comunitários e reafirmando identidades culturais construídas ao longo de 150 anos.


O projeto é realizado pela Anunciação Cultura, com patrocínio da CMOC Brasil, por meio da Lei Rouanet de Incentivo a Projetos Culturais. A iniciativa busca ampliar a visibilidade das Congadas, fortalecer ações de preservação cultural e contribuir para que essa tradição continue sendo transmitida às futuras gerações